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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Lembrança - Miguel Torga


Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!

MigueL Torga

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A palavra - Miguel Torga


Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo

A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.

Miguel Torga In Diário X

terça-feira, 17 de abril de 2012

Lua Nova - Miguel Torga

Desenha-se no céu a lua nova,
Límpida, casta, tenra como um gomo
De um alto, doce e sumarento pomo
Que a gula adeja, violenta e prova.

Vem doutra lua velha, sonolenta,
Com versos gastos, poeirentos, frios;
Vem com seus bicos doutros céus vazios
Onde a seiva cansada não fermenta.

Puro crescente branco da vontade,
Enquanto a noite, horizontal, ressona,
Mais se precisa, mais exibe à tona
A sua genuína mocidade.

Miguel Torga

domingo, 15 de abril de 2012

Para a manhã - Miguel Torga


Rosa acordada, que sonhaste?
Nas pálpebras molhadas vê-se ainda
Que choraste...
Foi algum pesadelo?
Algum presságio triste?
Ou disse-te algum deus que não existe
Eternidade?
Acordaste e és bela
Vive!
O sol enxugará esse teu pranto
Passado
Nega o presságio com perfume e encanto!
Faz o dia perfeito e acabado!

Miguel Torga

sábado, 3 de março de 2012

Frases e Citações - Miguel Torga


"Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa
e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade,
 enquanto não alcances não descanses, 
de nenhum fruto queiras só metade." 

Miguel Torga

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fascinação - Miguel Torga

Canta-lhe o vento as áreas que conhece,
E nenhuma perturba aquele olhar.
Nenhuma o transfigura ou adormece
E o tira de sentir e de fitar.

Terra de consciência iluminada,
Limpa na sua luz pensada e fria,
A celeste canção enluarada
Nenhuma paz humana lhe daria.

Não, porque o vento só conduz aladas
Forças que oscilam a raiz;
E aquele olhar quer descobrir paradas
Seivas da vida que a razão lhe diz.

Miguel Torga 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Ícaro - Miguel Torga

Minhas asas humanas de poeta! 
Derreteu-as o sol da lucidez. 
Cego, abria-as ao vento 
Da inspiração 
E voava. 

Mas pouco a pouco, 
Como quem desperta, 
Dei conta da cegueira. 
E fui perdendo altura. 

Agora canto apenas 
Ao rés-do-chão da vida, 
A olhar o descampado 
Do céu azul 
Aberto à graça doutras emoções. 

E o canto é triste assim desiludido. 
Falta-lhe a perspectiva e o sentido 
Que tinha quando eu tinha as ilusões.

Miguel Torga

sábado, 3 de dezembro de 2011

Exaltação - Miguel Torga



Venha!
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia!

Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é!
E cada qual que decida
Se quer a alma aquecida
No lume da nova fé.

Venha!
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado!
Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado!


Miguel Torga

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Nada menos que o todo - Miguel Torga



Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.



Miguel Torga