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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tuas palavras, Amor - Henriqueta Lisboa


Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu não as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram nos meus tecidos.

O' a minha pletora de alegria!...
As árvores bracejaram recebendo as bátegas entre as ramas,
as corolas bailaram numa ostentação de taças repletas,
os frutos amadurecidos rolaram bêbedos no solo.
E eu vivi a minha hora máxima de lucidez e loucura
sob a chuva torrencial de verão!

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!...
Minha alma era um rochedo solitário no meio das ondas,
perdido de todas as cousas do mundo,
quando, ao passar dentro da noite na tua caravela fuga,
tu me enviaste a mensagem suprema da vida.
A tua saudação foi como um bando de alvoroçadas gaivotas
subindo pelas escarpas do rochedo, contornando-lhe as arestas,
aureolando-lhe os cumes.

E a minha alma esmoreceu ao luar dessa noite,
ilha branca da paz, num sonho acordado...

Amor, como são belas e misteriosas as tuas palavras!...

Henriqueta Lisboa In Velário 


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Lírios - Henriqueta Lisboa


Certa madrugada fria 
irei de cabelos soltos 
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem 
simples e belos — perfeitos! — 
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça 
neblina rompe neblina 
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo 
para que ninguém perceba 
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria 
dobrando meus frios joelhos 
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo 
deitada por entre os lírios 
adormecerei tranqüila.
Henriqueta Lisboa  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Serena - Henriqueta Lisboa


Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.
E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

Henriqueta Lisboa


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Olhos tristes - Henriqueta Lisboa

Olhos mais tristes ainda do que os meus
são esses olhos com que o olhar me fitas.
Tenho a impressão que vais dizer adeus
este olhar de renúncias infinitas.

Todos os sonhos, que se fazem seus,
tomam logo a expressão de almas aflitas.
E até que, um dia, cegue à mão de Deus,
será o olhar de todas as desditas.

Assim parado a olhar-me, quase extinto,
esse olhar que, de noite, é como o luar,
vem da distância, bêbedo de absinto...

Este olhar, que me enleva e que me assombra,
vive curvado sob o meu olhar
como um cipreste sobre a própria sombra.

Henriqueta Lisboa