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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O sujeito e a coisa - Elisa Lucinda


Há pouco tempo descobri
que entre o sujeito e a coisa dá até pena da coisa.
Ora, a coisa é a coisa e por isto o é.
É coisa porque não tem ação.
É coisa porque não age,
não propulsiona,
não proporciona,
não intervém,
não muda o rumo
nem adianta o rumo de nada.
É coisa, por isso guarda,
por isso parada,
por isso aguarda.
Já o sujeito é o cara.
O que comanda o verbo,
o rei da tarefada.
Então se o sujeito resolve que vai fazer aquela coisa
e põe todo o seu exército de desejos,
sua fileira de vontades
a este serviço,
se o sujeito se incumbe, seriamente,
de seu compromisso de fazer a coisa,
de incidir sobre ela,
de moldá-la  a seu gosto e critério,
está este sujeito no lugar certo.
Seu particular império
arranca, desprende o abstrato
do seu conceito de inacontecido
e gera o fato.
Isso é gramático.
Não fui eu quem inventei.
O sujeito é o dono do verbo,
o sujeito é o senhor da ação.
Se o sujeito se voltar para ela,
para o seu acontecimento,
para o único motivo de sua oração,
razão pela qual a paz da obra no coração repousa,
ah… coitada da coisa!
Elisa Lucinda

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Escolha - Elisa Lucinda


Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina...
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias. 

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro.
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto.

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias. 

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas.
De todas as nossas indagações
fico com as respostas.
De todas as nossas destilarias
fico com as alegrias.
De todos os nossos natais
fico com as bonecas.
De todos os nossos cardumes
as moquecas.

Escolha - Elisa Lucinda

domingo, 22 de janeiro de 2012

Amanhecimento - Elisa Lucinda

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

Elisa Lucinda

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Da chegada do amor - Elisa Lucinda


Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.

Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.
Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.

Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.

Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.
Elisa Lucinda

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Safena - Elisa Lucinda



Sabe o que é um coração 
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

Elisa Lucinda

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cor-Respondência - Elisa Lucinda

Remeta-me os dedos 
em vez de cartas de amor 
que nunca escreves 
que nunca recebo. 
Passeiam em mim estas tardes 
que parecem repetir 
o amor bem feito 
que voce tinha mania de fazer comigo. 
Não sei amigo 
se era o seu jeito 
ou de propósito 
mas era bom, sempre bom 
e assanhava as tardes. 
Refaça o verso 
que mantinha sempre tesa 
a minha rima 
firme 
confirme 
o ardor dessas jorradas 
de versos que nos bolinaram os dois 
a dois. 
Pense em mim 
e me visite no correio 
de pombos onde a gente se confunde 
Repito: 
Se meta na minha vida 
outra vez meta 
Remeta.

Elisa Lucinda

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