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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tanto mais eu te contemplo - Affonso Romano de Sant'Anna

Tanto mais eu te contemplo
tanto mais eu me absorvo
e me extasio.

Como te explicar
o que em teu corpo eu sinto,
o que em teus olhos vejo,
quando nua nos meus braços
nos meus olhos nua,
de novo eu te procuro
e no teu corpo vou-me achar?

Como te explicar
se em teu corpo eu me eternizo
e de onde e como
sendo eu pequeno e frágil
pelo amor me dualizo?
Tanto mais eu te possuo
tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.

E à força, de tanto contemplar-te
e de querer-te tanto,
já pressinto que em mim mesmo
eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,

pouco a pouco fui mudando
para o teu ser de graça cheio.


Affonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 24 de abril de 2012

Instante de Amor - Affonso Romano de Sant'Anna


Me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.

Affonso Romano de Sant'Anna
In Intervalo Amoroso

terça-feira, 17 de abril de 2012

A solidão do corpo - Affonso Romano de Sant'Anna

Na solidão,
o corpo pode gritar
ou fincar-se como um mastro,
que nem a dor e o alíseo vento
lhe trarão de volta a chave.

Nada há de pélagos e escarpas
no senho do que se esculpiu de trevas,
antes,
é liso e verde como um fruto inteiro.

Parece que dorme.
Há desalinho nos braços e cabelos.
As partes
despojadas sobre o branco pasto do lençol.

Parece de pedra
com sua andadura móvel nas calçadas
e um senho opaco em meio às roupas.

Um corpo só,
é como fruto na pirâmide:
- não vinga.

Se queima em seus desertos
e arde suas dormências,
mas não conhece reflexo.

É opaco
como se alheio às artimanhas nos telhados,
aos veludos na calçada
e alheio à luva sobre a chave.

Um corpo só,
é duro como a rocha
que não se penetra de espadas,
que não se penetra de falas,
que não se penetra de asas.

A um corpo só,
nem raios lhe abrem o riso,
nem seus cabelos dão ninhos.

Um corpo só,
é quando amadurece a própria morte.

Affonso Romano de Sant'Anna

quarta-feira, 21 de março de 2012

Estás partindo de mim - Affonso Romano de Sant'Anna


Estás partindo de mim

e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vais levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.

Tanto mais tu me despedes
e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança do teu ser
me conformando.

Estás partindo de mim
e eu pressinto:
na verdade, há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito.

Mas não és a única que partes
nem eu o único que fico:
sei que juntos e contrários
nos partimos:
- pois tanto mais nos desencontros nos revemos,
tanto mais nas despedidas consentimos.

Affonso Romano de Sant'Anna In Poesia reunida



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Duas ou tres coisas - Affonso Romano de Sant’Anna

Duas ou três coisas que eu sei da vida
Posso até te aconselhar
Antes de mais nada esqueça os conselhos
E deixa o coração mandar

Duas ou três coisas que eu sei da estrada
Posso até te sugerir
Não vai pela sombra não, deixa o dia
Deixa a luz te colorir

Quem já viajou no bonde do sonho
Sabe onde ele vai parar
Salta muito antes do fim da linha
Na curva do mar

Duas ou três coisas que eu sei do mundo
Eu podia te ensinar
Mas cada mergulho é um
Vá bem fundo e aprenda logo a nadar

Duas ou três coisas guardo comigo
Que eu podia te contar
Mas quem tá com Deus não corre perigo
Vá onde o vento te levar.

Affonso Romano de Sant’Anna

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Confluência - Affonso Romano de Sant'Anna

Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.

Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.

Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
Intumescente encontro de reentrâncias.

Ter-te amado
fez-me sentir:

No corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.

Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A primeira vez que entendi - Affonso Romano de Sant'Anna

A primeira vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na infância 
cortei o rabo de uma lagartixa 
e ele continuou se mexendo. 

De lá pra cá 
fui percebendo que as coisas permanecem 
vivas e tortas 
que o amor não acaba assim 
que é difícil extirpar o mal pela raiz. 

A segunda vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na adolescência me arrancaram 
do lado esquerdo três certezas 
e eu tive que seguir em frente. 

De lá pra cá 
aprendi a achar no escuro o rumo 
e sou capaz de decifrar mensagens 
seja nas nuvens 
ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Sant'Anna

sábado, 21 de janeiro de 2012

Presente vivo - Affonso Romano de Sant'Anna

Viver
é conjugação diária
do presente.

Viver
é presentear.
Mais do que um jeito de doer
é um modo de doar.

E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.

Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.

Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crepusculando - Affonso Romano de Sant'Anna



É inenarrável esse crepúsculo
em mim se desmaiando
essas cigarras acima do ruído urbano
essas flores no terraço cúmplices
me olhando.


É inenarrável esse céu
esse dia
em mim se desmanchando.

Ergo um brinde à luz
e sigo
crepusculando.

Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Despedidas - Affonso Romano de Sant'Anna



Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'Anna

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Silêncio Amoroso - Affonso Romano Sant’Anna



Preciso do teu silêncio 
Cúmplice 
Sobre minhas falhas.

Não fale.

Um sopro, a menor vogal 
Pode me desamparar.

E se eu abrir a boca 
Minha alma vai rachar.

O silêncio, aprendo, 
Pode construir. 
É um modo denso/tenso 
- de coexistir.

Calar, às vezes, 
É fina forma de amar. 

Affonso Romano Sant’Anna

domingo, 18 de dezembro de 2011

Assombros - Affonso Romano de Sant'Anna



Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conjugação - Affonso Romano de Sant’Anna



Eu falo
tu ouves
ele cala. 

Eu procuro
tu indagas
ele esconde. 

Eu planto
tu adubas
ele colhe. 

Eu ajunto
tu conservas
ele rouba. 

Eu defendo
tu combates
ele entrega. 

Eu canto
tu calas
ele vaia. 

Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.



Affonso Romano de Sant’Anna

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A mulher madura - Affonso Romano de Sant'Anna



O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

Affonso Romano de Sant'Anna

O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 09.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Limites do amor - Affonso Romano de Sant'Anna



Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.



Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Catando os cacos do caos - Affonso Romano de Sant'Anna



Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fimNão é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.

Affonso Romano de Sant'Anna

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