sábado, 10 de novembro de 2012

A esperança como um Fósforo inda aceso - Fernando Pessoa

A esperança como um fósforo inda aceso, 
Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso. 
A falha social do meu destino 
Reconheci, como um mendigo preso. 

Cada dia me traz com que esperar 
O que dia nenhum poderá dar. 
Cada dia me cansa da esperança... 
Mas viver é esperar e se cansar. 

O prometido nunca será dado 
Porque no prometer cumpriu-se o fado. 
O que se espera, se a esperança é gosto, 
Gastou-se no esperá-lo, e está acabado. 

Quanta acha vingança contra o fado 
Nem deu o verso que a dissesse, e o dado 
Rolou da mesa abaixo, oculta a carta, 
Nem o buscou o jogador cansado. 


Fernando Pessoa
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