domingo, 5 de agosto de 2012

Tarde de chuva - Cecília Meireles

A nuvem negra 
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.

As mães chamam pelos filhos 
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.

Os pássaros fogem
por todos os lados 
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.

Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.

Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.

A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.

E o vento desce 
nas margaridas, 
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.


Cecília Meireles In Poesia Completa
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