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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Canção - Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas. 

Cecília Meireles

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Distância - Cecília Meireles

Quando o sol ia acabando
e as águas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.

Outras lágrimas nasceram
com o nascimento do dia:
só de noite esteve sêco
meu rosto sem alegria.
(Talvez o sol que acabara
e as águas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)

Oh!
mas nem no sol nem nas águas
os teus olhos a veriam...
— que andam longe, irmãos da lua,
muito clara e muito fria...


Cecília Meireles
in 'Viagem'

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Cavalgada - Cecília Meireles

Meu sangue corre como um rio
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mão.

Pelas suas ondas revoltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrelas soltas,
com a máxima cintilação.

Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantástica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vão!

Cecilia Meireles, In Viagem

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Marcha - Cecília Meireles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

Cecília Meireles
de Viagem
pag 298 - Editora Nova Fronteira.

Poema que inspirou a musica "Canteiros" de Raimundo Fagner 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Irrealidade - Cecília Meireles

Como num sonho
aqui me vedes:
água escorrendo
por estas redes
de noite e dia.
A minha fala
parece mesmo
vir do meu lábio
e anda na sala
suspensa em asas
de alegoria.

Sou tão visível
que não se estranha
o meu sorriso.
E com tamanha
clareza pensa
que não preciso
dizer que vive
minha presença.

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente.

Se me perguntam
pessoas, datas,
pequenas coisas
gratas e ingrata,
cifras e marcos
de quando e de onde,
- a minha fala
tão bem responde
que todos crêem
que estou na sala.

E ao meu sorriso
vós me sorris…
Correspondência
do paraíso
da nossa ausência
desconhecida
e tão feliz.


Cecília Meireles

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Amém - Cecília Meireles

Hoje acabou-se-me a palavra, 
e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também.

A profusão do mundo, imensa,
tem tudo, tudo - e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens, com os santos,
consigo, com Deus...E ninguém
entende o que está contando
e a quem...

Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.

Cecília Meireles

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sob a Tua Serenidade - Cecília Meireles

Não me ouvirás ...É vão ... Tudo se espalha
Pelos ermos de azul ... E permaneces
Sobre o vale das súplicas e preces
Com solenes grandezas de muralha ...

Minha alma, sem Te ouvir nem ver, trabalha
Tranquila. Solidão ... Desinteresses ...
Por que pedir? De tudo que me desses
Nada servirá a esta existência falha...

Nada servirá, agora ... E, noutra vida,
Oh, noutra vida eu sei que terei tudo
Que há na paragem bem-aventurada ...

Tudo – porque eu nasci desiludida
E sofri, de olhos mansos, lábio mudo,
Não tenho nada e não pedindo nada ...



Cecília Meireles 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carnaval – Cecília Meireles


Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha máscara, modela-a…
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer…

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando…
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval…

Modela a minha máscara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo…
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma…
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir…

Cecília Meireles

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Não se chora apenas ... Cecília Meireles


 Não se chora apenas
com a noite estendida sobre o sono dos homens,
com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos
trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns.

Não se chora apenas
com a solidão concentrada em firmes bosques,
num chão de sombras por onde as lágrimas se embebam,
e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença.

Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro.
Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite,
é do silêncio, é do deserto...
da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva...

Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado.
Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios,
nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres.

Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida,
alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia
com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços.

Nem é de nós, nem nos pertence.
Sentimos que é da terra e dos homens,
da desordem do tempo,
da espada das paixões sobre o peito do sonho.

Cecília Meireles

domingo, 25 de novembro de 2012

Aedo - Cecília Meireles


Nós cinco sabemos de tudo
e estamos sorrindo sem medos,
em cinco rostos absolutos,
na prata de um único espelho.

Rosa imortal e eterna murta
nem pousam no nosso cabelo.
Concentramos na lama o perfume
de que os outros fabricam beijos.

No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.

Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.

Por desamor às criaturas e 
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.

Cecília Meireles

domingo, 18 de novembro de 2012

Prelúdio da monção - Cecília Meireles


Vai chover muito.
No jardim que se esboroa de secura, 
cada folha suplica uma gota d´água.
Os passarinhos já fecham os olhos,
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.

As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.

Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…

A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.

Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.

Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.

Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.

Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.

Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...

Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido; 
mas ficará purificado?

Mesmo a palavra de amor, 
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.

Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.

Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive, 
se alguma coisa recomeçará.

Cecília Meireles de ‘Dispersos’

domingo, 11 de novembro de 2012

Sugestão - Cecília Meireles

Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.


Cecília Meireles

sábado, 10 de novembro de 2012

Infância - Cecília Meireles

Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles

sábado, 27 de outubro de 2012

Frases e Citações - Cecília Meireles



"Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas,
e foram sempre positivas para mim: Silêncio e Solidão.
Essa foi sempre a área da minha vida.
Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde relógios revelaram o segredo de seu mecanismo e as bonecas,
o jogo do seu olhar (...)."

Cecília Meireles In 
Obra Poética 

Ceres abandonada - Cecília Meireles


As arvores, secas,
descuidadas plantas.
E a deusa esquecida,
sem mais esperanças,
entre pedras fuscas
e galinhas brancas.

Ruivo pó do tempo
na remota fronte.
Veio de outras eras,
trazida de longe:     
- na sombra a deixaram.
Partiram para onde?

O elmo é de Minerva:
- mas, com o Sol no peito,
chamam-na de Ceres.
E seu lábio meigo
sorri sobre o nome,
falso ou verdadeiro.

Cheia de silencio,
contempla e medita.
E há campos e festas
e feixes de espiga
na pequena cova
de sua pupila.

Seus velhos poderes
ninguém mais recorda.
O modesto plinto
mão nenhuma adorna.
Para os homens vivos,
é uma deusa morta.

Mas o grão dourado
e a olorosa terra
e o boi que desliza
e o sol que se eleva
e o céu sobre humano
não se esquecem dela.

Fazem-se e refazem-se
os volúveis dias. 
No mármore, imóvel,
sempre a deusa é viva,
muito além dos homens
e de suas cinzas.

Cecília Meireles In Poemas Italianos

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Desamparo - Cecília Meireles


Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito,
porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano.

Mas no equilíbrio do silêncio,
no tempo sem cor e sem número,
pergunta a mim mesmo o lábio do meu pensamento:

quem é que me leva a mim,
que peito nutre a duração desta presença,
que música embala a minha música que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que estás como rosa ou barco...?

Cecília Meireles

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lei - Cecília Meireles

O que é preciso é entender a solidão! 
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga 
que leva os mortos. 

O que é preciso é esperar pela estrela 
que ainda não está completa. 

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa, 
e os lábios de ouro puro. 

O que é preciso é que a alma vá e venha; 
e ouça a notícia do tempo, 
e. entre os assombros da vida e da morte, 
estenda suas diáfanas asas, 
isenta por igual. 
de desejo e de desespero. 

Cecília Meireles in Poemas 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Interlúdio - Cecília Meireles


As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecília Meireles

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Reinvenção - Cecília Meireles


A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Cecília Meireles

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Adeuses - Cecília Meireles

Dia de cristal
cercado de vultos brancos:
pés descalços,
finas barbas,
longas vestimentas pregueadas.

Mulheres com olhos de deusas
transbordando um majestoso silêncio.

Luz em copos azuis.
Lábios em oração.
Mãos postas.

Dia de cristal
claro, dourado,
e óleo.

Foi muito longe,
num palácio de inúmeras varandas,
com árvores cheias de flores pela colina.

O vento subia dos jardins para as salas
com a fluidez de um visitante jovial.
E com que leveza dançava,
abraçado às cortinas, às sedas,
aos véus, à luz!...

Sabíamos que os encontros jamais se repetem,
nem a emoção do alto amor.

Éramos todos de cristal e vento,
de cristal ao vento.

E andavam nuvens de saudade por cima dos jardins.

Tão grande, o mundo!
Tão curta, a vida!
Os países tão distantes!

E alma.
E adeuses.

Cecília Meireles