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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

No dia que vem por aí - Ivan Martins


É difícil não sentir esperança. A vida parece ter sido feita para isso. Em vez de um tempo contínuo e inacabável, dentro do qual a nossa existência teria o ritmo dos bichos, habitamos um tempo fragmentado, dividido, que se encerra e recomeça por ciclos – de uma hora, de um dia, de um ano. Esses períodos definem a nossa existência e ajudam a dar sentido a ela. Eles fomentam a esperança.

Lembro de uma conversa, já antiga, em que alguém me explicava, do fundo de uma grande tristeza, o alento que recebia de cada manhã. “Hoje”, ela me disse, “eu posso ser totalmente diferente do que fui ontem, mudar a minha vida, mudar eu mesma e começar do zero. Cada novo dia me apresenta a possibilidade de ser outra pessoa e deixar a dor para trás.” Essa não é uma definição soberba de estar vivo? Andamos tão presos ao passado que ignoramos a possibilidade de mudança embutida no futuro. Começar de novo é a maior delas – para todos nós.

Houve um tempo, quando criança, em que eu costumava me imaginar um homem feito. Teria 25 ou 30 anos, seria veterinário ou agrônomo, seria casado com uma mulher com cabelos de índia e olhos de jabuticaba e viveria, com ela e três filhos, numa casinha rural rodeada de colinas, com cerca de madeira e chaminé, como as crianças costumam desenhar. Nesse cenário idílico, que nunca se materializou, eu seria feliz, destemido e generoso, como os heróis dos livros. Sobretudo, eu estaria pronto, teria me tornado um adulto perfeito – e os adultos, toda criança sabe, não têm medos ou dúvidas.

Os anos se passaram e, a cada 12 meses, a criança que eu era se confronta com o adulto que eu sou. A conversa nem sempre é tranquila, mas é fundamental que ela aconteça. O cara que eu me tornei deve satisfações à criança que eu fui. Tem de lidar com os sonhos dela e com as ilusões que ela engendrava sobre o futuro. O homem tem de contar para o menino que as coisas não são como ele sonhava, que a gente não faz a vida exatamente como quer, mas que, nem por isso, deixamos de ser dignos e bons. É importante que a criança dentro de nós saiba, também, que nunca estamos realmente prontos, nunca crescemos inteiramente, e que as nossas dores – e essa é a pior parte da conversa – não somem quando ficamos adultos. Seguem conosco, mesmo não sendo parte de nós. São como espinhos na nossa carne, e é preciso arrancá-los. Existe, afinal, a esperança de viver sem eles no ano que vem, na semana que vem, amanhã.

A moça com cabelos de índia e olhos de jabuticaba tomou outras formas ao longo do tempo. Foi loira, teve olhos castanhos, cabelos crespos. Mas, em cada mulher real, havia algo da Eva infantil, primordial, que eu procurava como se fosse uma resposta absoluta. Aí há outra complexidade que o menino não previra. Parece não haver uma mulher na nossa história, mas várias. Parece não haver uma única resposta, uma única possibilidade. Também nesse terreno (o do amor), podemos tentar, recomeçar, sonhar, sofrer – ter alegrias e surpresas, enormes.

Então, eu penso, que venha o Ano Novo.

Que venham os velhos e novos amigos. Que o amor encontre o seu lugar na nossa vida e que saibamos reconhecê-lo, preservá-lo ou deixá-lo morrer, quando for preciso. Que o ano nos traga coragem para fazer coisas novas, coragem também para lidar com as coisas antigas que deixamos de lado. Que neste ano a gente se encontre – uns aos outros e a nós mesmos – de um jeito que produza mudança e transformação. Sem auto-indulgência, sem auto-piedade, sem mi-mi-mi. Que 2012 venha para alegrar a criança que fomos e nos ajudar a ser os adultos que merecemos ser – no novo ano, na próxima semana, no dia que vem por aí.

Ivan Martins (Revista Época)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Com voce é diferente - Ivan Martins



Talvez haja homens que sejam os mesmos com todas as mulheres, mas eu duvido. Uma das grandes experiências humanas é perceber – no olhar, na conversa, na cama – que estamos diante de uma pessoa diferente e que tudo mudou. Os velhos hábitos não valem. Os truques de sedução e as fórmulas de reconciliação têm de ser redescobertas. É preciso começar de novo – por isso cada paixão faz de nós pessoas diferentes.

Mas essa não é a percepção geral das mulheres.

Tente explicar à sua nova namorada que você não é exatamente o sujeito que ela olhava de longe e de quem ouviu falar pela rádio peão. Tente dizer a ela que, para o bem ou para o mal, com ela você é outro sujeito: menos atrevido, menos engraçado, menos imprevisível, talvez. Ao mesmo tempo mais romântico, mais leal, sexualmente mais intenso.

Experimente contar a ela que o sexo cinco estrelas (e um Big-Bang) a que ela está se acostumando não existia dois meses atrás, quando você a conheceu. Diga que a máquina sexual em que você se transformou, (cheia de energia, audácia e imaginação), estava guardada num porão há 30 anos, esperando que ela entrasse na sua vida. Conte a ela que você nunca foi um fauno e que agora está surpreso com a temperatura a que água tem chegado.

Ao dizer essas coisas, ao sair do seu casulo de reclusão masculino e admitir que você não é super-homem na ausência dela, talvez você se depare com a incredulidade. “Ah, você diz isso pra todas”, algumas respondem. Pois eu garanto, meninas, que não é assim. Nem todas as mulheres que passam pela vida de um homem ouvem esse tipo de confissão. Quando o sujeito, depois de um tempo de convívio (e de romper várias camadas de intimidade), usa a frase mágica – “Com você é diferente” – acredite nele. Há uma chance enorme de que seja verdade.

O sujeito tem de ser emocionalmente muito burro, quase uma anta, para não se deixar tocar pela diferença. Imagine o cara que transa de um certo jeito com Maria e faz do mesmo jeito com Joana e Tereza. Ele pode ser muito bom de serviço, mas, se entregar sempre a mesma mercadoria, no mesmo pacote, na casa de várias mulheres diferentes, vai deixar várias delas insatisfeitas. E passar por autista. Eu não consigo imaginar algo que precise ser mais à la carte do que sexo.

Claro, cada um de nós, homens e mulheres, repete padrões íntimos. Temos um repertório emocional e físico que tende a reaparecer. Há um estilo e um sotaque na forma de transar, na forma mesma de se relacionar. Isso é parte da nossa personalidade, que vai se definindo com o tempo e com a experiência. Mas essa coreografia sexual não é imutável, algo que se execute independentemente da parceira. Cada transa – ou cada pessoa – tem sua própria música, e o nosso corpo se adapta a ela, se souber escutar. O bom sexo talvez seja o encontro de dois ritmos intimamente compatíveis, ainda que diferentes entre si.

Num mundo como o nosso, em que se transa com muita gente, não é fácil cultivar a afinidade. Hoje é com João, daqui a pouco é com Antônio, dentro de alguns dias, quem sabe, com José. Não dá tempo para descobrir compatibilidades que não sejam instantâneas. Não se consegue avançar além do óbvio, não se passa da arrebentação. Pode ser gostoso, mas tende a ser parecido e superficial. Cada um entra em campo com as fórmulas que trouxe do passado e se protege atrás delas. Primeiras transas revelam muito pouco, no máximo dão pistas. Quem fica sempre na primeira transa não passa da ante-sala dos outros e de si mesmo.

A conversa em que o sujeito admite que nunca teve um sexo tão gostoso só aparece lá na frente. Requer tempo, relaxamento, entrega. O cara (ou a garota) precisa perceber que está diante de algo especial, e tem de ter espaço para contar. Não é tão fácil nos dias que correm. As relações são muito rápidas e as pessoas ficaram duras. Muitas não querem escutar, não querem saber. Uma declaração de amor – ou uma declaração de prazer – põe o outro na sua vida. Para alguns, pode ser uma intimidade intolerável.

Se você não é assim, se você abriu a porta para que o seu namorado entrasse, dê crédito quando ele disser que você é única. Acredite quando ele, com cara de menino, contar que nunca foi tão gostoso, nunca foi tão intenso, nunca foram tantas vezes num mesmo fim de semana. Aceite o fato que, apesar da fama de safado e da óbvia competência que ele exibe, você é especial para ele – embora nem sempre você mesma se sinta muito especial. Uma das vantagens de se viver no século 21, neste pedaço do planeta em que homens e mulheres são relativamente livres, é poder andar por aí e descobrir, depois de muitas tentativas e alguns erros, uma chave que combina melhor com a sua porta – um corpo, uma voz e um desejo que parecem ter sido feitos para você. Quando isso acontecer, avise. Quando ouvir a mensagem, acredite. A felicidade não é permanente, mas existe.

Ivan Martins (Revista Época)