Mostrando postagens com marcador Artur da Távola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artur da Távola. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de outubro de 2012

Frases e Citações - Arthur da Távola

"Gosto de gente que tem tempo para sorrir bondade, semear perdão, 
repartir ternuras, compartilhar vivências e dar espaço para as emoções 
dentro de si, emoções que fluem naturalmente de dentro de seu ser!"


Arthur da Távola

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Frases e Citações - Artur da Távola

"Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternura e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim ..."

Artur da Távola

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Frases e Citações - Artur da Távola

"Gosto de gente...
gente que tem tempo
para sorrir bondade,
semear perdão,
repartir ternuras,
compartilhar vivências
e dar espaço pras emoções."

Artur da Távola

domingo, 29 de janeiro de 2012

Frases e Citações - Artur da Távola

"Para conjugar o verbo amar é preciso conjugar o verbo ser.
O amor é exercício de felicidade, não de poder.
Quem ama controla.
E quem controla por amor,
acaba desamando num plano mais profundo,
pois impede a pessoa amada de ser florescer, crescer, cres/Ser..."

Artur da Távola

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A ânsia de ser o que não é - Artur da Távola

Toda pessoa aspira ser o que ainda não é, ou ter o que ainda não tem. Nas sociedades materiais, possuir bens e sair do sufoco terrível de ter que viver pensando na casa, na roupa, e na velhice, é uma das aspirações do homem médio. 

Na sociedade de consumo, o índice de subida e de progresso pessoal é medido, pela capacidade de consumir. "É" mais, quem pode consumir mais. A variedade e diversificação da capacidade de consumir determina formas objetivas e subjetivas de valorização da pessoa. 

Assim sendo, o mundo dos que consomem com fartura passa a ser um mundo invejado, aspirado, desejado, ansiado. Ele representa o nível de aspiração dos que estão abaixo na escala social, sobrevem um impulso saudável de "subir". Mas também aumentam a cobiça e a inveja. 

Cada pessoa sabe ter uma possibilidade de ascensão. A maioria conhece os limites dessa possibilidade. Muitos, porém, os desconhecem e passam a vida tentando atingi-lo. Alguns (raros) o conseguem e passam a coonestar a possibilidade de todos fazerem o mesmo, utopia que se ocorresse mudaria a sociedade, alterando as suas divisões e subdivisões sociais. 

O hindu Baghwan Shree Rajneesh dizia que a grande fonte de aflições humanas é o tornar-se. O homem abandona o próprio ser e as disposições básicas de seu temperamento e vontade para tornar-se algo, ser alguém. Por isso sofre. 

O tornar-se transforma (transtorna?) o indivíduo num eterno insatisfeito, num eterno buscador do que ainda não tem e nunca terá pois sempre quererá mais. O tornar-se é a fonte de todas as aflições do homem e das sociedades porque aos poucos passa a ser a razão da vida. Esta, deixa de ser a capacidade de viver o momento e o novo o que nele (momento) existe (e insiste), para ser uma eterna preparação para algo sempre além. 

O tornar-se (substituindo a grandeza maior do Ser) constitui-se na causa principal da angústia contemporânea porque coloca objetivos sempre fora, sempre além, sempre adiante, impedindo o homem de viver o que se lhe é dado com a plenitude só possível a quem compreende que a eternidade é o instante que passa. 

É difícil para a cabeça ocidental conceber essa atitude budista de repúdio ao tornar-se. Toda a dinâmica de qualquer dos sistemas do Ocidente, religiosos ou políticos, tem por base a necessidade de superação do homem; o permanente esforço para atingir patamares novos e mais altos. Nesse sentido, a ânsia por tornar-se seria a própria mola propulsora do progresso. Assim pensa o Ocidente. 

A tese da sociedade de consumo, é, pois, esta: excitando o desejo de consumir, será obtido um consumo maior e assim crescerá a produção. Crescendo esta, haverá mais emprego, melhores salários e as pessoas realizarão esforços extraordinários em trabalho e estudo para obter uma valorização maior. 

Esse esforço coletivo, impulsionado pelos desejos individuais, determinará o progresso e a gradual democratização da sociedade pelo equilíbrio natural das oportunidades, segundo os méritos e o valor (sempre diferentes) de cada pessoa. É verdade: mas a um alto preço existencial. 


Artur da Távola

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O milagre da empatia - Artur da Távola



O mais difícil dos sentimentos é o sentimento do outro. O outro é ele e és tu. Ele é realmente o outro ou é a parte tua que não queres ser, saber, ver ou aceitar? Tu és o outro para os outros, logo és igual a ele. Todos somos “outros”. E, no entanto o outro invade, ameaça, mastiga de boca aberta, irrita, eriça, machuca.

Até teu filho é o outro. E tu, pobre pretensioso, pensas que ele é teu...

O sentimento do outro quantas vezes te faz parar, meditar, deixar de fazer o melhor que tens ou podes, só porque o outro é o mistério que te ameaça. Por que o outro te ameaça? Porque és tu. Quanto maior teu sentimento do outro, maior será teu o sentimento do melhor e do pior que tens.

O sentimento do outro não é sentir por ele. É saber o que ele sente. É avaliar o como e o quanto ele sente. O sentimento do outro não é o masoquismo de fazer teu, um sofrimento que só a ele pertence. É dimensionares a medida certa do sofrimento dele e só poderes ajudar porque não fazes teu um sofrimento que é alheio mas o entendes e sentes, na exata medida de sua extensão, sem as marcas e as limitações da dor enquanto dói. Não é ficar como o outro. É ficar com o outro. O sentimento do outro é quase um milagre. Cuidado com ele, vai te obrigar a ceder, a entender. Atrapalhará para sempre teu desejo, tua gula e vontade.

O sentimento do outro é aquilo que é mais prático não ter. Mas, em caso positivo é contágio de saúde: não podes deixar de exercê-lo. Senão fermentas. Senão apodreces.

Ele freará tua vitória, calará teu brilho e tua boca, impedirá tua vaidade. Pode, até, te pregar a suprema peça de te fazer entender os detestáveis. Cuidado com ele! Quanto maior, mais anulador! Quanto mais anulador, mais repleto de grandeza.”

O sentimento do outro, talvez te faça tímido, herói, cais, antena. Ser antena dilacera, sabias? O sentimento do outro te exigirá nervos, músculos, e uma paciência de anacoreta. Quanto mais o outro o perceba em ti, mais ele te invadirá, cobrará, exigirá, até quando, exaurido, ainda consigas juntar os cacos do teu cansaço para, ainda assim, prosseguir.

O sentimento do outro é tua glória e tua tragédia! Tanto mais o terás quanto encontres em ti os escaninhos escurecidos do que és e, ao mesmo tempo as luzes do que, ainda puro, brilha em ti.

O sentimento do outro é o conteúdo oculto do amor ao Próximo.

Artur da Távola

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Amor é o encontro com a verdade de cada um - Artur da Távola



Escolher o amor é encontrar e descobrir quem é para nós. Isto não quer dizer apontar quem pode ser um bom marido, uma boa esposa, o amante, a namorada. Tem a ver com intuição e eleição. E independência.

Sim, escolher o amor é exercer a independência. E, em nome desta independência, serão aceitas todas as dependências naturais, aderentes à relação. Parece contraditório, contudo não é. Só quem está inteiro na sua escolha e é total na direção de seu destino aceita as inevitáveis dependências naturais na vida e no amor. É que, na escolha do amor, está o encontro com a verdade individual e profunda de cada ser, uma verdade sem disfarces, que liberta.

Quem chegou ao amor por independência terá aceito a carga de sofrimentos, sustos, solidão e agressões aí originados. Não considera dependentes certos atos em prol do ser amado que, em outro contexto, seriam feitos com sacrifício, ou pareceriam servidão. E, assim livre, consegue ser feliz nas dependências naturais do amor.

Como o amor, a independência é filha da crise. Escolher caminhos ou pessoas é sempre crise, é conflito. Implica abrir mão, deixar, renunciar, abandonar, para operar a (nova) escolha. E o que se deixa, larga ou abandona, também dói, fere, dá culpa, sobretudo se não nos é indiferente ou descartável. 

Escolher é, pois, viver a crise. Também. O verdadeiro sentido da palavra crise é dividir, separar. Provém do grego krisis. Krisis é o ato de escolher, de separar, de julgar. È escolha, julgamento, eleição, divisão. Ao ter que escolher, somos tomados por uma crise, vale dizer, por uma divisão. O fato de estar divido, fragmentado pelos vários pólos de cada escolha é um ato crítico. Crise é, portanto, uma situação completa de escolha de caminhos ou decisões. 

Não há independência sem crise. Logo, não há amor sem crise. E o amor só se torna feliz, se pode escolher e ser escolhido num misterioso ato completo de liberdade. 



Artur da Távola

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A vida ensina - Artur da Távola


Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim.
Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.
Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.
Tanto mais lúdica quanto mais complexa.
Tanto mais complexa quanto mais consciente.
Tanto mais consciente quanto mais difí­cil.
Tanto mais difí­cil quanto mais grandiosa.
Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.
Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.
Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva. Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.
Que a vida ensine que tão ou mais difí­cil do que ter razão, é saber tê-la.
Que aquele garoto que não come, coma.
Que aquele que mata, não mate.
Que aquela timidez do pobre passe.
Que a moça esforçada se forme.
Que o jovem jovie.
Que o velho velhe.
Que a moça moce.
Que a luz luza.
Que a paz paze.
Que o som soe.
Que a mãe manhe.
Que o pai paie.
Que o sol sole.
Que o filho filhe.
Que a árvore arvore.
Que o ninho aninhe.
Que o mar mare.
Que a cor core.
Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe.
Verde. Como a esperança.
Pois, do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.
A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.
Artur da Távola

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Conjugando o conjugal - Artur da Távola



Palavra para a qual raramente se atina é conjugal. Por que conjugal? Porque viver junto (não me refiro apenas ao casamento contratual tradicional) é conjugar. Conjugar é viver todos os tempos e pessoas dos verbos. É saber ser eu, ser tu, ser ele, ser nós, ser vós e ser eles, sem perda da individualidade fundamental. Conjugar é viver vários tempos – presente, passado e futuro – e várias pessoas em nós. Conjugar é, pois, articular a complexidade de cada ser com a complexidade do parceiro/a.

Mas conjugar é, também, com+jugo. É estar com o jugo amoroso do outro. É com jugar. Não é subjugar (como no machismo tradicional). É estar não sob o jugo, mas com o jugo (compreensivo e amoroso) do outro. É estar com a vivência do amor em todas as pessoas (eu, tu, ele, nós, vós, eles). É ser vários em um. É uma troca permanente e não a imposição de uma das partes.


Conjugal, cônjuge, portanto, mais do que a palavra tornada fria pelo uso, possui o sentido profundo de conjugação, integração, articulação do par amoroso, através de uma união que pode se chamar casamento, amor, amizade colorida, transa, tanto faz. Cônjuge é quem conjuga com e não quem mora com ou tem o papel assinado ratificando o caráter legal da união.


Para conjugar o verbo amar é preciso conjugar o verbo ser. O amar é um exercício de felicidade, não de poder.


Sugestão a comunicadores


1) Sentir o público e atendê-lo no que quer, mas sempre fugir de alimentá-lo com evasão e devaneio. Em relação ao que se emite, equilibrar o que abasteça a vontade com a necessidade do público.


2) Contribuir para que as comunicações não sejam alienações da realidade ou se transformem em desfiles de inconseqüências bem vestidas, bem despidas e bem maquiadas, apenas por motivos mercadológicos.


3) Saber como fazer para mostrar o que é e como funciona o egoísmo geral. Fazê-lo, no entanto, sem recolher a raiva correspondente. Mostrar as verdadeiras causas da dor, da injustiça e da miséria. Revelar também a possibilidade de amizade, amor e ternura.


4) Colocar o trabalho a serviço do próximo, sobretudo dos mais fracos, os pobres e os enfermos, sem transformá-lo, porém, em demagógico expediente de exibição da miséria e do sentimentalismo com fins mercantis ou de audiência.


5) Enfrentar, a cada dia, um novo desafio ético. E ética significa equilibrar as contradições em função dos objetivos maiores de elevação e aprimoramento da conduta e do comportamento humano.



Artur da Távola 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ser tímido - Artur da Távola




O que é, para você, ser tímido? Ficar num canto, medão dos outros, calado, mordido por si próprio, incapaz de gesto ou palavra? Não. Isso é ser inibido. 


Ser tímido é ter o gosto da multidão e temê-la. Ser tímido é ficar com vergonha pelo outro. Ë saber que pode duvidar de tudo. 


Ser tímido é preferir calar sabendo o que falar. É não entrar nas disputas, cortado por elas, por dentro. É ficar mais do lado do garçom que do próprio e construir só na imaginação tudo que tem de melhor. E não se expor nunca, babau para as eficiências ou glórias. 


Ser tímido é esperar que o descubram. É invejar sem inveja. É ser capaz de se emocionar com certos poucos que a sensibilidade escolhe e sabe de onde vêm, nas poucas vezes em que chegam. 
E se querer primeiro e se esperar por último. É zangar com as próprias raivas e duvidar sem temor.


Ser tímido é ter um orgulho! E curtir até com soberba emoções de somenos para os outros, e ser humilde naquilo de que os demais se orgulham. 


Ser tímido é manter o espanto do olhar de qualquer criança frente ao estranho. Ou abrir os braços para ele sem saber por quê. É estragar as defesas todas pelo sorriso. E temer a quem ama e detes tar a quem teme.


Ser tímido é querer a gravata borboleta que nunca usará. É encontrar calor nas derrotas e temer ganhar, pelos outros. Ser tímido é sentir alegria no que não dá resultado e enfadar-se com as vitórias. É esperar algo que não se sabe, mas se aguarda com fé. 


Ser tímido é trabalhar no que não dá e gastar o tempo por um critério muito pessoal e impossível de explicar às pessoas práticas. 
Ser tímido é ficar sempre do lado de fora da vitrina. 
É gastar pérolas ou suéteres onde não deve. É ser provisório. É poder ter brinquedos emprestados. É permanecer gostando. 


Ser tímido é entender cães e crianças. Pode ser falar muito. Pode ser até brilhante. Pode ser luzir. Mas sem raiva, senão de si mesmo, por ofuscar os outros. O tímido é o rei do sentimento do outro no lugar do próprio. É um doente do melhor de si mesmo. 


Ser verdadeiramente tímido é nunca saber o impreciso limite entre timidez e fraqueze. É ser tolerante com ambos. É ser duro como pedra consigo mesmo e sentir-se responsável não pelo cartão do ponto, mas pela sensibilidade dos demais. 


Ser tímido é poder querer. É fazer sem que saibam, mas ter necessidade de que saibam. Ser tímido é ser temeroso da própria vaidade, é querer entrar na festa, eterno penetra da alegria alheia porque a sua é secreta. 


Ser tímido é rir para, em vez de rir de. Ser tímido é procurar saber, é querer a justiça, é esperar que os outros reconheçam. É situar tudo no plano do afoito ou do afeto, mesmo quando não existem. 


Ser tímido é transformar-se em flores. É manter a pão e água o que não se dobrou. O que resiste. O que não se entrega. O que é mais forte até do que o desejo de não ser tímido. É ficar de longe, intenso, mas imperceptível. 


Ser tímido é emocionar-se demais e pairar olímpico. É ter recato pelo que não pode e não diz, não fala e resiste. 


Ser tímido é viver convalescendo de si mesmo, ontem. Mas igual amanhã, arre! É ter perdido a visão heróica de si mesmo e sentir-se muito melhor, embora julgasse que ia ser insuportável. 


Ser tímido é esperar que o sintam, sabendo-o impossível mas sabendo-se possível. 
É voltar para casa numa solidão de luas e cães. 


Ser tímido é manter viva a criança, rolar pelo chão com a vida que não teve,feliz porque ela se prolongou na fantasia. É levar a vida que teve dentro da pasta, disponível. 


Ser tímido é saber mais do que faz. É ficar feliz quando pontas do que é e sente são percebidas de graça. Num ato, gesto, olhar ou bofetada. 


Ser tímido é gostar de chuva. E rezar. É ter saudade do pai. 


Ser tímido é ser rei, na madrugada de seu reinado escondido e deslumbrante. 


Artur da Távola

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ato de contrição - Artur da Távola



Ah, como somos comedidos!
Acomodamo-nos, vãos,
nos limites do concebido.

Somos bem educados, cultos,
e ruge tanta fome
nos apetites fora do concedido.

Ah, como somos sob medida!
sub metidos, hirtos, bem vestidos,
robôs impecáveis, ilusão de vida.

Ah, somos como os subvertidos,
introvertida soma de extrovertidos
por pompa, tinta, arroto ou brilhantina.

Filhos do instante, do entanto e do porém,
somos através, como os vidros,
mas opacos e pervertidos, sempre aquém.

Traçamos sinas e abstrações,
terçamos ódio finos, dissuadidos,
lãs de olvido e alucinações.

Sovamos os sidos, os vividos,
somos eiva, disfarce, diluição.
Somos somas a subtrações.

Artur da Távola

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A quem se machuca - Artur da Távola



Inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra. Só que de costas.
Há duas situações inimigas dentro do amor. Pertinho e uma de costas para a outra. Ambas ameaçam dar certo e não dar certo.

Quando se ama, tanto se teme enfrentar a possibilidade de dar certo,cheia de prisões e tentáculos, como o risco de não dar certo e ficar rompida uma harmonia que  poderia ter funcionado.

Ambas as situações convivem em quem ama. Porque “viver bem” não é dar certo. Dar certo é ser capaz de prosseguir apesar do desacerto.
“Viver mal” não é necessariamente dar errado. Dar errado é não poder prosseguir.

Composto também de partes inimigas, o amor se enriquece dos cansaços incapazes da destruição. Só vive do imperfeito de cada confronto. Só é, quando vive ameaçado de deixar de ser. Caso contrário, não seria; simplemente deixaria de ser.

Os inimigos são duas pessoas pertinho uma da outra, mas de costas,porque, se  se virarem, encontrar-se-ão. E é isso o que temem. São mais unidos, talvez, que amigos, um de frente para o outro, mas a metros ou quilômetros de distância, e só por isso se entendem.

O  medo de amar é o medo de estar perto demais (ainda que de costas), o que de certa forma escraviza. O engano de amor é estar longe, mas de frente, o que de certa forma atenua.

A coragem de amar equivale à coragem de ser: é fazer dois inimigos, de costas um para o outro, virarem-se de frente para sentir o perfume, o olho, o medo, a força, a ternura, muita raiva e muito carinho e aceitartudo, por isso amar.

A falsidade do amor é permanecer de frente como amigos: pura e simplesmente se aceitando. Sem contradita. Sem a oposição capaz de ser vencida pela permanência do sentimento, a despeito do eu de cada um.

O medo de quem ama é o medo da relação profunda, porque nela está a entrega que não rompe, apesar das  tragédias da superfície. E a superfície só faz a tragédia, para impedir que o eu contemple de  frente a relação profunda. Esta contém o que não se destrói, apesar das diferenças.

Na relação profunda está o desamparo e a necessidade tão pura que nunca pôde vir à tona. Na relação superficial está a fantasia, o eu idealizado, a armadura enfeitada de cada um.

Quem se relacionar ao nível da armadura será  feliz no começo, na fase hipnótica do amor. Quem preferir o nível profundo de relacionamento talvez seja até infeliz. Mas amará. A infelicidade  pode  fazer virar as costas para o inimigo, separar-se dele. Mesmo assim não será maior que o amor advinhado e sentido, se a relação é profunda.

Não te vires de frente para o inimigo! Podes amá-lo. Ele vai advinhar, e tu também, o amor está na peleja de quem ama. Não fiques tão de frente, mas tão longe de quem gostas. No que chegares perto, talvez detestes e sejas detestado.

Amar é estar de costas. Gostar é estar de frente. Um ultrapassa a inimizade que vive junta. Outro vive a amizade fácil, mas que se se aproximar pode não ser amor. Por isso era tão fácil sentir!

Amar é apesar. É através. É a despeito, mas é com. Amar, às vezes, é contra, mas perto e fundo. Mesmo de  costas. É malgrado. É com ferida e cicatriz, mas íntegro, verdadeiro e leal.

Amar fundo é  ter medo de virar de  frente. Porque  aí pode  surgir, cristalina, a possibilidade de dar certo. É a entrega. Que é, no fundo,o que mais teme quem ama.

Artur da Távola


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ser jovem - Artur da Távola






Ser jovem
é amar a vida, cantar a vida, abraçar a vida,
perdoando até as pedradas que a vida nos joga em rosto.


Ser jovem
é Ter altos e baixos, entusiasmos e desalentos.
É vibrar com os momentos bons e 
passar por cima do que nos machuca, 
com um sorriso fácil apagando os percalços.


Ser jovem 
é apiedar-se dos mais fracos, 
não ter vergonha de fazer um sinal da cruz em público,
cantarolar uma canção em pleno ônibus.
E apreciar uma piada gostosa.


Ser jovem
é escrever diário, às vezes.
Copiar poesias de amor e remetê-las ao namorado,
à namorada, com assinatura própria.


Ser jovem
é compadecer-se de quem sofre, 
com aquela vontade imensa de fazer o milagre da cura,
de restituir a saúde àqueles que a gente estima e ama.


Ser jovem
é beber um lindo pôr-do-sol,
ar livre e noites estreladas. 
Não se intrometer na vida alheia, 
fazer silêncios impossíveis, 
ficar ao lado das crianças, 
gostar de leitura, 
Ter ódio de guerra e de ser manipulado.


Ser jovem 
é Ter olhos molhados de esperança e
adormecer com problemas,
na certeza de que a solução madrugará no dia seguinte.


Ser jovem 
é amar a simplicidade,
o vento, 
o perfume das flores, 
o canto dos pássaros. 
Ter alegria ao dramático, ao solene. 
E duvidar das palavras.


Ser jovem 
é vibrar um gol do time,
jogar na loteria esportiva, 
emocionar-se com filmes de ternura e
simpatizar secretamente com alguém que a gente viu só de passagem.


Ser jovem 
é planejar praias no fim do ano,
sonhar com um giro pela Europa 
e uma esticada pela Disneylândia... algum dia.


Ser jovem 
é sentir-se um pouco embaraçado diante de estranhos,
não perder o hábito de encabular,
tremer diante de um exame e detestar gente gritona e resmunguenta.


Ser jovem 
é continuar gostando de deitar na grama, 
caminhar na chuva, 
iniciar cursos de inglês e violão, sem jamais terminá-los.


Ser jovem
é não dar bola ao que dizem e pensam da gente.
Mas irritar-se, quando distorcem nossas melhores intenções.


Ser jovem é 
aquele desejo de fazer parar o relógio, quando o encontro é feliz, 
quando a companhia é agradável e a ventura toma conta do nosso ser.


Ser jovem 
é caminhar firme no chão, à luz dalguma estrela distante.


Ser jovem
é avançar de encontro à morte,sem medo da sepultura e do que vem depois.


Ser jovem
é permanecer descobrindo, amando, servindo,
sem nunca fazer distinção de pessoas.


Ser jovem
é olhar a vida de frente, bem nos olhos, 
saudando cada novo dia, como presente de Deus. 

Ser jovem
é realimentar o entusiasmo, o sorriso, a esperança, a alegria, a cada amanhecer...


"Ser jovem
é acreditar um pouco na imortalidade, em vida. 
É querer a festa, o jogo, a brincadeira, a lua, o impossível.


Ser jovem 
é ser bêbado de infinitos que terminam logo ali.
É só pensar na morte, de vez em quando.
É não saber nada e poder tudo.


Ser jovem 
é gostar de dormir e crer na mudança.
É meter o dedo no bolo e lamber o glacê.
É cantar fora do tom, mastigando depressa, mas engolir devagar a fala do avô.


Ser jovem 
é embrulhar as fossas no celofane do não faz mal.
É crer no que não vale a pena, mas ai da vida se não fosse assim.


Ser jovem
é misturar tudo isso com a idade que se tenha,
trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta ou dezenove.
É sempre abrir a porta com emoção. 
É abraçar esquinas,
mundos, luzes, flores, livros, discos, cachorros e a menininha,
com um profundo, aberto e incomensurável abraço feito de festa,
dentes brancos e tímidos, todos prontos para os desencontros da vida. 
Com uma profunda e permanente vontade de ser

Artur da Távola



domingo, 23 de outubro de 2011

Manifesto Ingênuo - Artur da Távola



A poesia começa quando o poeta pensa que acabou o poema. O poema não é a poesia.

É somente um dos seus condutores, talvez até o mais aparelhado.

Toda poesia que cede ao poema frustra-se.

Todo poema que cede ao verso, perturba-se.

Todo verso que cede à beleza arrisca-se.

Toda beleza que domine o poeta ameaça-o de não alcançar a poesia.

O poema precisa ser escravo da poesia. Deve aviltar-se, ser volúvel, hipócrita ou solidário, mas corajoso o suficiente para compreender e aceitar o seu lugar de coadjuvante.

Há poetas que começam e acabam seus versos no poema e jamais atingem a poesia, mesmo utilizando-se da melhor inspiração e de refinada linguagem.

Poesia, poema, verso e poeta são concomitantes, contraditórios e conflituosos ao mesmo tempo. Inimigos íntimos que se amam.

A poesia é soberana. O poema e o verso, invejosos, ambicionam o lugar dela. O poeta é um ser carente, aturdido e lindo, o único com permissão de levar o verso, o poema e a beleza para o julgamento da poesia. Esta, exigente, quase sempre reprova os vários intentos do poeta, embora jamais o proíba de dar luz ao poema. A poesia sabe que, mesmo quando não alcançada, vislumbres do que é podem estar presentes no poema, em alguns ou muitos versos ou nos delírios do poeta. Por isso só interfere no seu trabalho para disparar a inspiração.

A poesia é deusa. Verso e poema são anjos: intermediários entre o território superior e sagrado da poesia; entidades de grande valor transitivo. Jamais verdades em si mesmas.

O poeta é o herói mitológico. Nasce do casamento de uma deusa (a poesia), com um mortal (o poema). É bem-vindo, porque ajuda a quase impossível compreensão do que é a poesia. É um ser alado e bendito, amaldiçoado pela dúvida, cujo afã é o verso e a finalidade o poema. Alça-se à procura da deusa-poesia. Esta, somente em alguns casos e por especial concessão olímpica, se deixa alcançar, desde que o poeta não se embebede com o verso, com o poema ou consigo mesmo, sobretudo se for talentoso.

Poema e verso jamais podem se arrogar a pretensão de representar com exclusividade a poesia. São meros condutores que, ao se suporem representantes da poesia, são por ela punidos.

A poesia é tão superior, que nem da beleza precisa. Esta, em geral, a disfarça ou atenua. Por mais bem que faça - e faz - a beleza é a ilusão da poesia. Só vale, quando se serve do poema para tentar atingir a poesia. Esta só precisa de som, ritmo e palavra por viver mais próxima da música, que do discurso.

Não é o poeta que escolhe a poesia. Esta o escolhe sem lhe fornecer, jamais, poderes incondicionais sobre o poema e quase sempre lhe negando a precisão do verso; às vezes até embebedando-o com notáveis descobertas no idioma. E quando, por ser superior, humilha, logo depois se mostra disponível tanto melhor quanto mais fácil e desfrutável. Esconde-se onde se revela, chegando às vezes à humildade de necessitar do poema a quem em seguida desdenha e escarnece.
A única liberdade possível ao poeta é a de buscar a poesia.

Ela quase sempre está onde o poema a oculta ao mesmo tempo em que a proclama.



Artur da Távola

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A mulher é mestra do homem - Artur da Távola



A mulher que sabe amar é mestra do homem. Jamais governanta. 
A mulher que sabe amar não irrompe nem interrompe. Chega suave. 
A mulher que sabe amar conhece a sua superioridade e os limites desta. 
A mulher que sabe amar sabe ser mãe e ser um furor na cama. 
A mulher que sabe amar jamais se deixa subjugar. Nem subjuga. 
A mulher que sabe amar sabe que não basta ter razão. Precisa saber ter razão. 
A mulher que sabe amar é o ser mais elevado que há na terra. 
A mulher que sabe amar cala quando sabe não ser compreendida e fala na hora certa. 
A mulher que sabe amar jamais diz: eu não falei que não ia dar certo. 
A mulher que sabe amar compreende os filhos e sem pretender ensina amor ao marido. 
A mulher que sabe amar por ser superior não se preocupa em mandar. 
A mulher que sabe amar não sabe obedecer cegamente: ou compartilha ou se separa. 
A mulher que sabe amar sabe tanto de moda quanto de arte. 
A mulher que sabe amar educa sem reprimir e orienta sem impor. 
A mulher que sabe amar fala baixo, não usa perfumes exagerados e ama a alma. 
A mulher que sabe amar conversa com Deus e partilha com a família.
A mulher que sabe amar sente sua máxima realização quando amamenta. 
A mulher que sabe amar tem orgasmo, é abençoada pela bondade. 
A mulher que sabe amar não faz alarde de sua superioridade sobre o homem. 
A mulher que sabe amar é a responsável pela sobrevivência da espécie humana. 
A mulher que sabe amar jamais ouvirá de seu marido a frase: 
Eu não tenho opiniões: tenho esposa.... 



Artur da Távola