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domingo, 16 de setembro de 2012

Ao pé do ouvido - Alfonsina Storni


Beija-me se queres beijar-me
- eu comparto teus desejos -
não na boca p′ra calar-me:
nos olhos quero teus beijos!

Não me fales dos feitiços
no colo: são beijos belos,
mas ciumentos estão meus riços.
Acaricia-me os cabelos!

Para teu mimo oportuno
se teus olhos são palavras,
Me darão, uno mais uno,
os pensamentos que lavras.

Tua mão entre as minhas
tremerão como um canário
e ouviremos as modinhas
de algum amor milenário.

Esta noite é noite morta
sob o teto sideral.
Está tão calada a horta
como num sono letal.

Tem um matiz de alabastro
e um mistério de Pandora.
Olha a luz daquele astro!
Tenho-a na alma, agora.

Silêncio... silêncio... Cala!
até a água corre mansa
sobre o leito cor de opala:
chega à areia, e lá descansa.

Oh, que perfume tão fino!
Na boca estão os desejos!
Nesta noite de platino
Nos olhos quero teus beijos...
Alfonsina Storni

domingo, 22 de julho de 2012

A inquietude da roseira - Alfonsina Storni


A roseira em seu inquieto modo de florescer 
Vai queimando a seiva que alimenta seu ser. 
Prestai atenção nas rosas que caem no rosal: 
Tantas caem que a planta morrerá deste mal! 
Não é adulta a roseira e sua vida impaciente 
Se consome ao dar flores precipitadamente. 


 Alfonsina Storni

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sou essa flor - Alfonsina Storni


Tua vida é um grande rio, vai caudalosamente,
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.


Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.


Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.

 Alfonsina Storni


domingo, 11 de março de 2012

O Engano - Alfonsina Storni


Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

Alfonsina Storni

Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

sábado, 17 de dezembro de 2011

A carícia perdida - Alfonsina Storni



Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos…No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará… andará…
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?
Alfonsina Storni
(Tradução de Carlos Seabra)