domingo, 22 de janeiro de 2012

Um boi vê os homens - Carlos Drummond de Andrade


Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado,
sempre esquecidos de alguma coisa.

Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial,
posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.

Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar 
o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço.

E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha, e que secura
e que reentrâncias e que impossibilidade
de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.

Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto)
e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda
e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres
e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: 
desejo, amor, ciúme(que sabemos nós), 
sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
Carlos Drummond de Andrade

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