segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Nenhuma ferida - Fabrício Carpinejar
Nenhuma ferida
separava teus pesadelos.
Quando vagaste em meia-idade
pela selva escura, fiquei
a conversar com tuas camisas,
aprumando boinas
que afogavam os cabelos.
Tinha sete anos ao certo
e uma lua vadia disputando
corridas comigo.
Fiquei a entreter
os tecidos alinhados,
como um exército em revista,
procurando convencer
uma peça ao menos
a delatar tua deserção.
Quando vagaste em meia-idade
pela selva escura, fiquei
alimentando o aquário
das gravatas.
Pedia privacidade às traças.
Vestia tua camisa,
copiando o ritmo
dos teus traços,
a respiração copiosa,
sendo meu próprio
e definitivo pai.
Fabrício Carpinejar
“Um Terno de Pássaros ao Sul”
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