segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mistério - Florbela Espanca


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
 Dizendo coisas que ninguém entende!
 Da tua cantilena se desprende
 Um sonho de magia e de pecados.

 Dos teus pálidos dedos delicados
 Uma alada canção palpita e ascende,
 Frases que a nossa boca não aprende,
 Murmúrios por caminhos desolados.

 Pelo meu rosto branco, sempre frio,
 Fazes passar o lúgubre arrepio
 Das sensações estranhas, dolorosas…

 Talvez um dia entenda o teu mistério…
 Quando, inerte, na paz do cemitério,
 O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca

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