sábado, 15 de dezembro de 2012

A culpa e a vergonha - Martha Medeiros

Algo que me cansaria é desconfiar de todo mundo – despende uma energia que não tenho pra gastar à toa. Portanto, costumo confiar. Se não faço mal a ninguém, se não minto a torto e a direito, se não desejo que os outros se ferrem, qual a razão de imaginar que agiriam assim comigo? Me parece lógico: nossa abertura ou retranca social reflete como agimos com quem nos cerca. Se caçoamos, temos medo de ser caçoados. Se traímos, temos medo de ser traídos. Somos nossa própria referência. 

Logo, se eu não apronto, não temo que aprontem comigo. O que nem sempre funciona, claro. Já me aprontaram ao menos duas vezes. Caí num golpe telefônico (um pedido falso de doação) e outra vez ao vivo, um teatrinho bem feito no meio da rua. O prejuízo: alguns trocados perdidos, nada demais. Me senti trouxa por 10 minutos e depois a vida seguiu seu curso. 

Por isso, fiquei impressionada pelo fato de a enfermeira que cuidava de Kate Middleton ter se suicidado. Ora, ela pode ter sido ingênua ao não perceber o trote dos radialistas australianos, mas não é pecado cair numa armação que, no caso, não teve consequência nefasta alguma. Ela não entregou segredos de Estado, não provocou uma guerra entre nações, não colocou a monarquia em risco. 

Ela simplesmente transferiu uma ligação falsa e permitiu, assim, que a duquesa tivesse seu quadro clínico desvendado – aliás, nada que todos já não soubessem: enjoos, anemia, coisas típicas de uma gestante nos primeiros meses de gravidez. A enfermeira, ao não perceber que não era a rainha da Inglaterra do outro lado da linha, demonstrou apenas sua total ausência de maldade – o que, nos dias atuais, deveria até ser comemorado. 

Mas vá saber como ela lidava com a culpa. 

Pra quem carrega o mundo nas costas, qualquer errinho vira motivo para autoflagelo. Essa moça indiana, Jacintha Saldanha, devia ser do tipo que pedia desculpas por ter nascido. Que tinha um excessivo pudor em relação às suas fraquezas. Que se martirizava a cada pequena desatenção de sua parte. Ao ser designada para tomar conta de uma integrante da família real, viu-se no auge da sua responsabilidade, e não aguentou a chacota justo quando nada podia falhar. Mas as coisas falham, à nossa revelia. 

Trote, quando prejudica os outros (caso de quem inventa falsos acidentes para a polícia, os bombeiros etc.) é uma leviandade que pode se tornar criminosa. Nos casos menos graves, é uma criancice. Nunca é um exemplo a seguir, mas os radialistas não me pareceram ter agido de má-fé, eles apenas não dimensionaram o tamanho da encrenca que viria. 

Pessoas são sensíveis. Pessoas são frágeis. Como essa enfermeira que se penalizou de uma forma drástica e desproporcional ao fato. Ou, vai ver, sou eu que, vivendo no Brasil das mil e uma bandalheiras, do Brasil onde todos tiram o corpo fora, me desacostumei com a existência de um ser humano que ainda se envergonha.


Martha Medeiros - Jornal Zero Hora
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