segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Na torre - Pablo Neruda


Nesta austera torre
não se combate:
a névoa, o ar, o dia
rodearam-na, partiram 
e deixaram-me com o céu e com papel,
solitárias doçuras e deveres.
Pura torre de terra
com ódio e mar distantes
removida
pela onda do céu:
na linha, na palavra quantas
sílabas? Quantas?

Bela é a incerteza do orvalho,
cai na manhã
separando
a noite da aurora
e a sua fria dádiva
permanece
indecisa, aguardando o árduo sol
que a ferirá mortalmente.

Não se sabe
se fechamos os olhos ou a noite 
abre em nós olhos refulgentes,
se escava na parede do nosso sonho
até abrir uma porta.
Porém o sonho
 é o veloz vestido dum minuto:
consumiu-se num latejo
da sombra
e caiu a nossos pés, desabilitado,
quando se movimenta o dia e nos navega.

Esta é a torre donde vejo
entre a luz e a água silente
o tempo com a sua espada
e apresso-me então a viver,
respiro todo o ar,
transtorna-me o deserto
que se constrói sobre a cidade
e falo comigo sem saber com quem
desfolhando o silêncio 
das alturas.

Pablo Neruda In Plenos Poderes
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