domingo, 13 de maio de 2012

Saudade de mãe - Padre Fábio de Melo


Coloquei o filtro da arte naquela cena comum

e a luz que até então estava escondida
veio surpreender-me com seu poder de claridade.

A mulher simples, mãos calejadas de lida rotineira,
mulher que aprendeu a curar as dores do mundo
a partir dos meus joelhos esfolados de quedas e estripulias.

Aquela mulher, minha mãe,
rosto iluminado por uma labareda que tinha origem no fogão de lenha
trazia consigo o dom de me devolver a calma
que a vida tantas vezes insistiu em me roubar.

Aquela cena, mulher, fogão de lenha,
panela preta, escondendo a brancura de um arroz feito na hora
é uma das cenas mais preciosas
que meu coração não soube esquecer.

Saudade de mãe é coisa sem jeito.

Chega quando menos imaginamos:
um cheiro, uma melodia, uma palavra, uma imagem
e eis que o cordão do tempo nos convida ao retorno à infância,
como se um fio nos costurasse de novo ao colo da mulher
que primeiro nos segurou na vida 
e agora pudesse nos regenerar.

Saudade de mãe é ponte que nos favorece um retorno a nós mesmos.
Travessia que nos recorda uma identidade muitas vezes esquecida,
perdida na pressa que nos leva.

Saudade de mãe é devolução,
é ato que restitui o que se parte,
é luz que sinaliza o local do porto,

é voz no ouvido a nos acalmar 
nas madrugadas de desespero e solidão
através de uma frase simples:

"dorme meu filho, dorme"

Hoje, nesse dia em que a vida me fez criança de novo;

neste instante em que esta cena feliz tomou conta de mim,
uma única palavra eu quero dizer

Oh, minha mãe... que saudade eu sinto de você!
Padre Fábio de Melo
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