quinta-feira, 22 de março de 2012

Rosas Silvestres - Clarice Lispector

Só esta expressão rosas silvestres já me faz aspirar o ar como se o mundo fosse uma rosa crua. Tenho uma grande amiga que me manda de quando em quando rosas silvestres. E o perfume delas, meu Deus, me dá ânimo para respirar e viver.
    As rosas silvestres tem um mistério dos mais estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo vão perfumando mais. Quando estão à morte, já amarelando, o perfume fica mais forte e adocicado, e lembra as perfumadas noites de lua de Recife. Quando finalmente morrem, quando estão mortas, mortas - aí então, como uma flor renascida no berço da terra, é que o perfume que se exala delas me embriaga. Estão mortas, feias, em vez de brancas ficam amarronadas. Mas como jogá-las fora se, mortas, elas tem a alma viva? Resolvi a situação das rosas silvestres mortas, despetalando-as e espalhando as pétalas perfumadas na minha gaveta de roupa.
    Da última vez que minha amiga me mandou rosas silvestres, quando estavam morrendo e ficando mais perfumadas ainda, eu disse para meus filhos:
    Era assim que eu queria morrer: perfumando de amor. Morta de exalando a alma viva.
    Esqueci de dizer que as rosas silvestres são de planta trepadeira e nascem várias no mesmo galho. Rosas silvestres, eu vos amo.Diariamente morro por vosso perfume.


Clarice Lispector In  Aprendendo a viver 
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