sexta-feira, 23 de março de 2012

Profundidade da insônia - Cecília Meireles

Na insônia feliz é que se conhece o aroma certo
das fronhas, das madeiras, do ar, das sombras, e se escuta
o casual grito das aves, acordando
como em parques de outros países, noutros séculos.

Tilintam em subsolos imaginários
campainhas de insetos, em cortejos de gnomos,
Oh ! as nossas tranças, como estão cheias de bosques abraçados,
com arroios atravessando muros, cidades, meses...

Insônia feliz, na silenciosa solidão humana.
insônia acesa sobre o tempo.
E o braço dos santos,se levanta, grave e sem mãos,
nos arruinados oratórios,
com as bênçãos perdidas no ar de cera e flores mortas.

Ah , na insônia feliz é que as ausências se aproximam,
nos corredores da memória, hesitantes em cada porta.
Abrem-se, enfim, secretas janelas sobre os campos,
as pedras, os cemitérios, o livre mar, as nuvens tênues...
E de longe se avistam hastes com rosas, pavios com luzes :
— tudo ascensão de saudade e extrema lágrima.

Na insônia feliz, mortos e vivos saem de casa,
de braço dado, com seus ramos de perdão.
Acenam, sorriem, cordiais e recíprocos,
transparentes e imaculados, com suas auréolas de sol pálido.

Em trapézio de seda balança-se o peso dos infortúnios,
e as feras mansamente brincam, em jardim de cristal.

Na insônia feliz, sente-se o orvalho, a pétala, a asa :
a altura do céu, com seus andares superpostos
a vigilância do universo, sustentando seus abismos,
a outra insônia — a da morte — a de tudo que vive, além do humano;
a espantosa vigilância magnética e eterna , —de alto a baixo.

Na insônia feliz, nossas horas são episódio subterrâneo
de humildes enterrados, vagamente rastejando,
com mãos de cinza que tateiam o mar, o momento, as almas,
enquanto — mas de onde? — sobe em redor um ininteligível música.

Cecília Meireles In Dispersos
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