sábado, 10 de março de 2012

Enquanto a chuva cai... - Manuel Bandeira


A chuva cai. O ar fica mole...
Indistinto... ambarino... gris...
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!
Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.
Volúpia dos abandonados...
Dos sós... - ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados 
Que se sentem envelhecer...
Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!
A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair! 
Contenta as árvores! Contenta 
As sementes que vão abrir!
Eu te bendigo, água que inundas! 
Ó água amiga das raízes, 
Que na mudez das terras fundas 
Às vezes são tão infelizes!
E eu te amo! Quer quando fustigas 
Ao sopro mau dos vendavais 
As grandes árvores antigas, 
Quer quando mansamente cais.
É que na tua voz selvagem, 
Voz de cortante, álgida mágoa, 
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem 
A estrugir, rugir e mugir, 
O lamento das quedas d'água!


Manuel Bandeira
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