sábado, 4 de fevereiro de 2012

No meio da poça - Clarissa Corrêa

Eu tentei achar uma definição simples para o desespero. Não consegui. Desespero não se define, é que nem dor. Dor se sente. Dor dói. O desespero da dor desespera dolorosamente.

A esperança é que nem erva daninha. Você ajeita o jardim, planta flores, árvores, deixa tudo enfeitado. Lá vem a erva danada daninha. Estraga. Atrapalha. Polui o ambiente. A esperança é assim: você tenta seguir em frente, tenta não pensar, se distrai para não sentir e ela nasce. Na verdade ela nem morre. Nunca vi esperança morrer.

Você sabe que não pode se deixar abater, seja forte, seja forte. E você se olha e vê que está no fim de tudo. Se sente esquisita, feia, acabada, entregue. Mas você sabe que as coisas não são assim, você supera tudo, ora bolas. Só que agora você não está com vontade, ânimo e paciência para olhar para cima. Está concentrada em olhar para baixo, em se detonar, em sentir pena de você mesma agarrada em carboidratos, doces e conhaque (outras bebidas fortes também valem). Você sabe do seu valor, os outros lembram a toda hora que você é A mulher. Que bom, você pensa. Que ruim, você sente. Mas sentir não é ruim. E você sabe. Você sabe que precisa se reerguer, só não encontra uma forma, um jeito.

Poça d´água. Quando vemos uma, desviamos. Pulamos. Saltamos. E agora você está bem ali: no meio da poça d´água. Suja. Molhada. Com frio. Ferida. Perdida. Uma voz bem distante lhe diz "você vai ficar bem". Você manda a voz calar. Só escuta o som das suas lágrimas e da bateria do vizinho, o desgraçado insiste em lhe tirar a paz. Não lhe deixa sofrer no silêncio. Você não tem vida social. Você desliga os telefones. Você se afasta dos amigos. Você quer ficar sozinha. Sozinha, feia, agarrada em carboidratos, doces e conhaque (outras bebidas fortes também valem).

Hoje você olhou para a poça d´água e disse: chega. Não quero mais. Cansei. Sofrer cansa. A dor desgasta. Você faz o que pode. Você fez o que pôde. O jeito? Seguir. Sempre. Pular poças. Achar forças. Reencontrar aquela mulher (aquela!!!) que você sempre foi. E que você quer (e vai!) continuar sendo. Por quê? Simples. Você é e sempre foi merecedora do melhor. Você não derruba as petecas. Não se entrega. Choro, tristeza, mágoa...acontece. Quem é vivo sente. Quem sente é vivo. Mas podemos chorar sem entregar os pontos. Aquela que estava entregando os pontos e vendo a vida passar não é você. E quem é você?

Aquela que encara e segura qualquer onda. E pula qualquer poça d´água. Grande, média ou pequena.

Clarissa Corrêa
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