sábado, 25 de fevereiro de 2012

As doçuras que nem sempre a gente vê - Clarissa Côrrea


Sei que nem sempre a vida é fácil. Na verdade, acho que na maior parte das vezes a gente encontra dificuldades no meio caminho. Mas viver é isso, não é? É lidar com adversidades, é tentar buscar um novo jeito de fazer as coisas. Não sou uma deusa, tampouco uma juíza. Não estou aqui para julgar atitudes de A ou B. Mas tem coisas que me impressionam demais.

Anteontem eu soube que uma prima em segundo grau faleceu. Parece que foi excesso de medicamentos para dormir. Uma época, eu tive insônia. Tomava um Rivotril por noite. Então, meu médico foi viajar e fiquei sem receita. Desespero total. Fiquei sem dormir por duas ou três noites. Depois, cansada e com sono, dormi. E decidi nunca mais tomar medicação, pois vicia em pouco tempo. Tomei apenas seis meses, mas pareceu uma eternidade. Hoje, de vez em quando tenho insônia, mas me viro. Nem que seja de um lado para outro. Mas eu falava dessa prima. Sim, ela tinha vários problemas, sofreu várias perdas, passava por um momento difícil. Não tinha muito contato com ela, mas soube disso tudo por terceiros. Quem quer dormir, toma um ou dois remédios. Quem quer acabar com o sofrimento, toma várias cartelas. E assim dorme pra sempre. O nome disso é acabar com a vida. É suicídio. É estar tão desesperado e despreparado, é estar tão sem força e tão deprimido, é estar tão sem chão, é estar tão sem saída que a única saída que a pessoa enxerga é dar um fim para tudo. Estudei muitos casos na faculdade. Mas confesso que tenho medo.

Acho que a gente não pode medir o sofrimento do outro. Não estamos na pele da outra pessoa. Cada um tem sua força, sua fraqueza, cada um tem suas dores, suas infelicidades. Tem gente que fala que fulaninha tinha tudo, por que é tão infeliz? Eu tenho uma amiga que é bonita, culta e endinheirada que já tentou se suicidar mais de uma vez. Quem vê pensa que ela não tem nenhum problema. Ninguém sabe da família bagunçada e das várias crises que ela já teve na vida. Ninguém sabe o que ela acumulou no peito.

Procuro enxergar o lado bom das coisas. Aprendi com meu pai que sempre existe o outro dia. Hoje tudo pode parecer terrível, mas a gente dorme (ou passa a noite em claro) e no outro dia o problema parece menor. Na hora do aperto, a gente enxerga o problema com lupa. Ele se torna enorme. Sempre "existe um dia depois do outro, com uma noite no meio", né pai?

Existem doçuras que a gente nem sempre vê. Existem problemas que nem sempre são o que parecem. Quer um exemplo? Fui demitida no começo de janeiro, na volta das minhas férias. Tentei ligar o computador da agência em que eu trabalhava, mas não consegui fazer o login. Chamei o moço da informática e ele disse que já ia resolver. Nesse meio tempo, o RH me chamou. Dentro da sala, estava a moça do RH e o diretor de criação da agência. E o final você já pode imaginar. Seria muito indelicado da minha parte falar mal das pessoas ou do lugar em que eu trabalhava. E não vou fazer isso. Simplesmente fui embora. Arrumei as coisas e fui. Eles apenas adiantaram a minha decisão. Eu ia pedir pra ir embora em março ou abril. Agora eu faço meus freelas, tenho tempo para me dedicar a outros projetos, escrever, cuidar de coisas que tinha deixado pra trás. Algumas pessoas são demitidas e acham o fim do mundo, ficam com medo de recomeçar e seguir em frente. O medo faz parte, pois do amanhã ninguém sabe. Mas a gente tem que buscar o que quer. E buscar nossa própria força em algum lugar dentro da gente.

Todo mundo tem problema. Mas nem todo mundo consegue dar a volta por cima. Acho que tentar é essencial. E quem não consegue tem que procurar ajuda. Da família, de um médico, de uma religião, de qualquer coisa que traga um suporte, um consolo, um abrigo. Porque a gente precisa disso pra viver. Minha prima, infelizmente, não conseguiu. Tomara que ela encontre a luz e a paz.

Acho que uma pessoa tem que estar muito mal (e ter muita coragem) para acabar com a própria vida. A vida da gente é a coisa mais bonita que existe. Mesmo que nem sempre seja doce. Mesmo que nem sempre tenha cor. Mesmo porque quem dá o sabor e o tom somos nós mesmos. Diariamente.

Clarissa Côrrea
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